“São Paulo é um estado pujante”, diz Tarcísio
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirma que, ao mesmo tempo que apresenta bons índices econômicos, o estado de São Paulo também tem muitos desafios a serem superados. Nesta entrevista exclusiva, ele destaca uma série de investimentos de seu governo na Baixada Santista e avalia que o país está testemunhando “o caso do PT e de Lula”.
Na entrega da primeira fase do Parque Palafitas, deu para percebeu que o senhor tem um carinho especial por este projeto. Qual a razão?
A razão é a transformação. É um projeto que foi pensado por um escritório super bacana, que é o do Jaime Lerner, que foi um grande urbanista. Um projeto que o Rogério me apresentou e mostrou paixão e disse “olha, aqui nós vamos transformar a vida das pessoas”. E, de fato, quando a gente vê o resultado, vê que realmente vale a pena, mostra que o caminho está certo. A gente já autorizou mais 350 unidades, vamos iniciar a segunda etapa. E a ideia é ir replicando esse projeto. Uma coisa legal é que você mantém a pessoa onde ela se acostumou a morar, só que com muito mais dignidade. Essa é a beleza do projeto. Aí já vem junto o saneamento básico, a urbanização. Então, é um grande projeto de transformação social.
Existe a possibilidade de ampliar esse modelo pra outras cidades?
Existe. Claro, cada cidade vai ter a sua especificidade. Por exemplo, na Vila dos Pescadores, a gente vai construir um conjunto com muitos edifícios, numa abordagem diferente, não é esse conjunto flutuante, é numa área que já está consolidada. A gente vai investir R$ 250 milhões, vamos construir mais de mil habitações. No Guarujá, a gente construiu apartamentos para tirar a pessoa das palafitas, Cubatão e São Vicente da mesma forma. Temos o programa Vida Digna, que tem por objetivo tirar pessoas de palafitas. Esse programa começa com 3 mil habitações, a gente já entregou 1.870, e 1.130 já estão em construção, mas não vai parar por aí. A gente sabe que a demanda é muito maior.
Há projetos para ampliação do VLT?
Tem sim. Primeiro tinha que concluir a segunda etapa do VLT, que é o que está acontecendo agora. Havia a necessidade de compatibilizar o sistema de comunicações do VLT com o sistema de semaforização na cidade. É fundamental para a segurança. Agora a gente vai pensar nas expansões. O reforço da Ponte dos Barreiros está pronto, então agora a gente já pode passar um VLT para lá e acertar com a concessionária a terceira etapa, até o Samaritá, para a parte continental de São Vicente, e a extensão para Praia Grande, para levar o VLT para o litoral sul. A gente já está pensando na outra etapa, até Guarujá. A partir do momento que você concluir o túnel, em 2030, a gente pode pensar na extensão para o Guarujá. Obviamente, antes disso, a gente vai trabalhar em projetos.
Em relação ao túnel Santos-Guarujá, o senhor mencionou que o financiamento do custeio ser meio a meio governo federal e governo do estado, não é bem assim, pois o Estado se responsabilizaria por mais de 80% do custo da obra. Eu queria que o senhor explicasse que conta é essa.
Eu tenho que pensar que o túnel tem duas componentes de aporte financeiro. Uma é no momento da construção. No caso, União e Governo do Estado, entram com 90%, 10% é o privado. Então, coube a cada um R$ 2,6 bi. Mas tem, depois que o túnel entra em operação, as contraprestações anuais.
Por quê? A tarifa não remunera o investimento que vai ser feito. Não faria sentido eu ter uma travessia de balsa em um patamar de tarifa e ter um túnel com uma tarifa mais alta. Eu tenho que operar com o mesmo padrão tarifário da balsa. Para a conta fechar, eu tenho que aportar dinheiro e esse dinheiro vem todo do estado. O contrato de concessão é de 30 anos, seis anos de construção e 24 de operação. Para cada ano de operação, a gente tem que pagar uma contrapartida, por volta de R$ 400 milhões de reais. Então, quando a gente pega 400 milhões de reais vezes os 24 anos mais os 2,6 bi, a gente está falando de mais de R$12 bi que o Governo do Estado está botando, contra 2,6 do Governo Federal. Então, na verdade, a gente está entrando com 84% do valor do custo, tanto de operação quanto de investimento, contra 16% do governo federal. Então, o governo federal só participa da fase inicial, que é a fase da construção, com metade do valor. Quando entra na fase de operação, 100% da contraprestação é responsabilidade do Governo do Estado.
O senhor mencionou também que vai optar por um modelo de construção que demora um pouco. Qual a razão?
Se a gente fizesse a moldagem das peças fora daqui, não precisaria montar uma doca seca, poderia montar todas as peças de uma única vez e fazer o transporte para cá e a imersão e montagem do túnel. Por que a gente não quer fazer isso? Primeiro, pela distância de transporte. E o segundo motivo, o principal, a gente quer gerar emprego na Baixada Santista. Então, fazer a doca seca na Baixada significa mobilizar trabalhadores daqui. A gente vai abrir em breve um escritório aqui para cuidar basicamente de duas coisas. Primeiro, o suporte às pessoas, principalmente do Macuco, que ficam preocupadas com a questão habitacional. O outro é começar a cadastrar e capacitar as pessoas que poderão ser contratadas na obra, que vai gerar 5 mil postos de trabalho. De qualquer maneira, a gente vai fazer algumas otimizações no projeto para comprimir o tempo de cronograma e poder entregar o quanto antes.
A Operação Verão da Saúde vai ser realizada também nas próximas temporadas?
Vai, vai. A Operação Verão da Segurança Pública deste ano foi a maior da história, mobilizamos 4.200 homens. A gente teve uma redução de 25% dos indicadores criminais. Mas a gente resolveu fazer uma coisa diferente, mais abrangente. Na temporada de verão, a Baixada é muito pressionada porque recebe muito turista. E esses turistas vão para a rede de saúde aqui das cidades. Então, a gente aportou R$ 53 milhões para os municípios, para a estrutura dos serviços de saúde. E realmente foi um grande sucesso. Então, ela vai ser repetida nos próximos anos.
Qual a importância das parcerias com as prefeituras e lideranças do Congresso?
É fundamental que a gente tenha a porta aberta. Os prefeitos, as lideranças locais, acabam tendo uma visão muito mais precisa da realidade local. O prefeito Rogério Santos me trouxe o projeto do Parque das Palafitas, o Paulo me trouxe uma série de demandas da Zona Noroeste, porque ele é um cara que é apaixonado pela Zona Noroeste e trabalha muito lá. O Paulo Alexandre Barbosa é um cara especial, é um orgulho saber que a Baixada Santista tem um grande representante no Parlamento Federal. Um cara que faz a diferença, animado, que gasta a sola de sapato, que gosta de gente, está preocupado com as pessoas. Ele se tornou um exemplo para mim. Foi um grande prefeito de Santos, é um grande deputado federal, é um grande amigo e é uma pessoa que faz a diferença. E o trabalho dele faz a diferença para todos vocês, é o recurso que chega na ponta.
É mais fácil governar São Paulo ou resolver uma equação de trigonometria de prova do ITA?
Eu acho que resolver a equação é mais fácil. É um Estado extremamente complexo, é um Estado pujante, porém desigual. A gente tinha um desafio, em termos de política industrial, de fazer os PIBs de regiões crescerem de forma mais uniforme, e a gente está conseguindo isso. Está saindo de um PIB de 2,83 para 3,43. Isso significa que a riqueza está chegando em regiões onde não estava.
A gente pode celebrar o fato de ter 40% dos nossos alunos no ensino médio, no ensino profissionalizante, o melhor Saresp da história no final, com o melhor resultado de matemática da história. Ganhamos o selo ouro do MEC na alfabetização na idade certa. Criamos a tabela SUS Paulista, que está sendo uma revolução para a saúde. Na infraestrutura, estamos fazendo uma expansão sem precedentes da nossa rede metroferroviária, mais de 30 quilômetros em obras. São Paulo fez 104 quilômetros de metrô ao longo de 50 anos, em quatro anos a gente fez 50. Tem a conclusão de coisas importantes como o Rodoanel, agora tem aqui o Túnel de Santos-Guarujá, vai ter a terceira pista da Imigrantes, o trem Intercidades Campinas-São Paulo. A segurança pública é um desafio super difícil, super complexo, São Paulo está com os menores indicadores criminais da história, só que essa sensação não chegou para o cidadão. Então esse é um desafio, melhorar a percepção de segurança. São Paulo entregava 25, 30 mil unidades habitacionais a cada período de 4 anos, a gente já entregou 83 mil, eu estou com 102 mil em obra, a gente autorizou recentemente mais 49 mil que vão começar que vão entrar em construção.
O governo Lula sofreu duas grandes derrotas, uma na indicação de Jorge Messias ao Supremo e agora a derrubada do veto ao projeto da dosimetria. Na sua avaliação, o que isso significa e como vai isso impactar nas eleições, tanto presidenciais quanto aqui no governo do estado?
Vai além da rejeição do nome. Na verdade, é a própria rejeição do governo. O Congresso funciona muito como um termômetro, o Congresso sente o cheiro das ruas primeiro. O que ele está vendo? Perda de poder, de prestígio, falta de condição de liderar qualquer processo que seja de mudança, de transformação. É um grande recado de que o governo já não tem mais nada para dar, o ciclo do PT está se esgotando, estão exaurindo o Brasil, não estão apresentando nenhum projeto novo. Se a gente tivesse que batizar esse episódio com algum nome, seria o ocaso do PT, o ocaso dessa era, o ocaso do Lula. Então, é um governo que está chegando ao seu fim de uma maneira bastante melancólica.